sábado, outubro 01, 2005

Antígona - Prólogo

Antígona sofria a morte dos irmãos. Não lhe chegara aos ouvidos, ainda, a crueldade de Creonte. Já há tempos a conhecia, porém a tristeza dos mortos a aumentaria durante as infindas vinte e quatro horas. Rezara a Zeus, de nada adiantara, dois cadáveres se empilhavam no chão, o filho de Cronos preferira a companhia de Ares. Um duplo fratricídio, era o destino desta família matar os seus.

Rezara a Zeus, de nada adiantara, apenas, talvez, os havia igualado, tombaram ambos, ao mesmo tempo, um pela mão do outro. Isto aumentava consideravelmente a dor de Antígona. Ainda tinha Ismênia, mas não lhe servia de apoio, a dor só aumentava. A dor que permeava sua existência, a dor de seu pai, da tragédia de seu pai. Sofria a perda dos irmãos e sofria a maldição da família, sofreria ainda mais ao saber da ordem de Creonte? Sofria e maldizia as Parcas. Que tinham elas que tecer suas malhas tão desumanamente? Desgraçadas. Maldizia Ares, o impetuoso e vermelho Ares. Banhado em sangue e semeando guerras, que tinha ele que se banhar com o sangue de seus irmãos? Maldizia, em seu âmago, Atena. A sábia Palas não podia ter posto seu juízo entre os dois? Maldizia Febo, o grande sol, Apolo em sua carruagem de ouro fora quem havia começado tudo, punira Édipo por um crime que ele não tinha consciência de cometer, não o sabia, não tinha como saber. No turbilhão pereceram seu avô e sua avó que era também sua mãe, Jocasta, a esposa maldita de Édipo e de Laio. Que culpa tinham eles? Maldito Oráculo, e também Tirésias, sabia de tudo, talvez pudesse ter evitado. Que fosse para o Hades logo. Nunca trazia solução, sempre desgraça.
Sofria a morte de Polinices. Mas sofria Polinices mais do que sofria por Etéocles? Odiava Creonte e Polinices fora contra Creonte, fora contra sua tirania. Talvez pelo poder e não contra a tirania de Creonte, só contra Creonte. Antígona preferia pensar que não.
* Essa é uma idéia bizonha que eu tive....reescrever a Antígona de Sófocles, minha peça de teatro favorita. Porém eu achei melhor tentar fazer isso assim, em romance. Esse é o Prólogo e não sei se deu lá muito certo, mas se alguém ainda visita isso, comente por favor!!

quarta-feira, junho 29, 2005

Essência

Essência
Irrisório momento de prazer. Eu a vejo refletida em minhas retinas pelo espelho. Depois do banho, mesmo se esvaindo a sujeira que me remete a ela, eu a vejo. Seu nome escrito na neblina. Seu nome? Teve nome algum dia? Talvez fora apenas um corpo. Houve sentimento? Se houve eu fiquei de fora, por fora, as bordas disso e de tudo. Seu nome? Havia um. Me lembro de uma letra...a. A! Ah, que alívio poder pensar que não estou delirante, houve um nome afinal, houve mesmo um amor. Será? Não terei eu sido arauto do meu exagero? Transformar um pequenino sexo em um grande e complexo amor. Pequenino? Ora, o sexo não pode sempre ser pequenino, porém, claro, não pode ser também complexo. A, uma letra inicial, e justamente a letra que inicia por excelência: A. Mas a não define, não esboça, não colore, não pinta, nem sequer traça traço algum, é preciso mais. Penso agora..................................................m. M é a letra seguinte, já duas temos: a e m. Am. Como não vi nunca antes? Junta-se tão bem: Am.Começa um nome. Sinto vibrar as cordas narrativas, o épico pedindo acontecimentos, mas não ocorre nada. Nada..........Nem me lembro do porquê da dor que senti quando vi teu nome num velho papel, um caderno, meu, minha letra, quatro letras encerravam tudo quanto me importava. Quantas letras faltam para completar-te, desenhar teu nome? Mais duas. O é a seguinte. Amo, ainda sem ter-te, teu-nome , completo. Mais uma letra falta para descobrir-te, mas já não te tenho ciência? Talvez não, eu vago tolo e sempre fui só, e mesmo assim, apesar de ser o que me acompanhou, nem assim lembro teu nome completo. A última letra, uma consoante, r. R é a última letra do teu nome: Amor. “?!”. Amor? Me apaixonei pelo próprio amor? Um apelido talvez...mas sei que não, não é isso, é a essência mesmo: Amor. De repente vem tudo, cada nuance, cada lembrança. Uma morte aguda se anuncia. Tão só, fui sempre...Não posso crer, não posso esperar menos de tudo-isso-de-mim. Choro, não choro, choro, despero. Vazio-vácuo, buraco luminoso, eu. Triste figura, sem um pingo de vida sobrando, sem nada, sem nada. Nenhuma lágrima escorre, não precisa. Eu amo o Amor, ele, porém, não me ama.

Arthur Malaspina

* Escrevi esse continho(?) a pouco tempo

sábado, maio 14, 2005

Epílogo Triste

Epílogo Triste

Quando eu era feliz, não destilava tanta dor,
quando eu era feliz, você deve se lembrar,
eu quase nunca humilhava ninguém.
Eu era feliz!
Quando eu era feliz isto me bastava, apenas.
O fato de ser feliz,
fato este que não me deixava pensar em nada que não coisas felizes.
Eu era feliz, muito feliz,
nem imaginava, disto você deve com certeza absoluta lembrar,
o que era um coração partido.
Ouso dizer que naquela época nem imaginava que não existia coração,
não imaginava que não existia felicidade.
Eu era um paradoxo!
Era feliz, mesmo não existindo o sentimento, a sensação felicidade.
Como sou triste hoje!
E como sou tão mais triste em saber que já, um dia, não fui tão triste,
que um dia não fui nem triste,
que um dia...fui feliz...paradoxal...
um dia existi plenamente...
...hoje não mais existo.

* Eu escrevi esse poeminha hoje.

terça-feira, fevereiro 08, 2005

Ilusão

Vovó me falou que eu era lindo,
que todo mundo me amava.
Vivia a ilusão materna,
como que no mito de Platão.
E a luz se fez(ela sempre se faz),
foi como um poste dentro de uma caixa de aliança,
um fogo pálido que desfez e eu vivi pra sempre a ilusão.

Hoje escrevo as palavras como se fossem ficção,
e me dói,
e me dói.

Me dói saber da cegueira das mães,
me dói saber da visão dos outros,
me dói não ter coragem de ficar despido.

Escrevo e morro de desespero.
Escrevo e sei, e sei do medo que tenho.
Escrevo com a tinta dos enganados,
porém eu sei que o mundo não esconde as garras.

O mundo fincou presas em mim.
(Arthur de Oliveira Malaspina)

* Como é carnaval me lembrei dessas músicas:

MENTE AO MEU CORAÇÃO-Paulinho da Viola
(Malfitano/Pandia Pires)

Mente ao meu coração
Que cansado de sofrer
Só deseja adormecer
Na palma da tua mão
Conta ao meu coração
Estórias das crianças
Para que ele reviva
Velhas esperanças
Mente ao meu coração
Mentiras cor de rosa
Que as mentiras de amor
Não deixam cicatrizes
E Tu és
A mentira mais gostosa
De todas as mentiras que tu dizes

TIVE SIM-Cartola
(Cartola)

Tive sim outro grande amor antes do teu,
Tive sim
O que ela sonhava eram os meus sonhos
E assim íamos vivendo em paz
Nosso lar
Em nosso lar sempre ouve alegria,
Eu vivia tão contente como contente ao teu lado estou.
Tive sim, mas comparar com o teu amor seria o fim
E vou calar, pois não pretendo amor te magoar.



* São músicas tristes, como os sambas antigos costumavam ser, mas tem porquê,
afinal acho que o carnaval é um pouco triste também.