quarta-feira, junho 29, 2005

Essência

Essência
Irrisório momento de prazer. Eu a vejo refletida em minhas retinas pelo espelho. Depois do banho, mesmo se esvaindo a sujeira que me remete a ela, eu a vejo. Seu nome escrito na neblina. Seu nome? Teve nome algum dia? Talvez fora apenas um corpo. Houve sentimento? Se houve eu fiquei de fora, por fora, as bordas disso e de tudo. Seu nome? Havia um. Me lembro de uma letra...a. A! Ah, que alívio poder pensar que não estou delirante, houve um nome afinal, houve mesmo um amor. Será? Não terei eu sido arauto do meu exagero? Transformar um pequenino sexo em um grande e complexo amor. Pequenino? Ora, o sexo não pode sempre ser pequenino, porém, claro, não pode ser também complexo. A, uma letra inicial, e justamente a letra que inicia por excelência: A. Mas a não define, não esboça, não colore, não pinta, nem sequer traça traço algum, é preciso mais. Penso agora..................................................m. M é a letra seguinte, já duas temos: a e m. Am. Como não vi nunca antes? Junta-se tão bem: Am.Começa um nome. Sinto vibrar as cordas narrativas, o épico pedindo acontecimentos, mas não ocorre nada. Nada..........Nem me lembro do porquê da dor que senti quando vi teu nome num velho papel, um caderno, meu, minha letra, quatro letras encerravam tudo quanto me importava. Quantas letras faltam para completar-te, desenhar teu nome? Mais duas. O é a seguinte. Amo, ainda sem ter-te, teu-nome , completo. Mais uma letra falta para descobrir-te, mas já não te tenho ciência? Talvez não, eu vago tolo e sempre fui só, e mesmo assim, apesar de ser o que me acompanhou, nem assim lembro teu nome completo. A última letra, uma consoante, r. R é a última letra do teu nome: Amor. “?!”. Amor? Me apaixonei pelo próprio amor? Um apelido talvez...mas sei que não, não é isso, é a essência mesmo: Amor. De repente vem tudo, cada nuance, cada lembrança. Uma morte aguda se anuncia. Tão só, fui sempre...Não posso crer, não posso esperar menos de tudo-isso-de-mim. Choro, não choro, choro, despero. Vazio-vácuo, buraco luminoso, eu. Triste figura, sem um pingo de vida sobrando, sem nada, sem nada. Nenhuma lágrima escorre, não precisa. Eu amo o Amor, ele, porém, não me ama.

Arthur Malaspina

* Escrevi esse continho(?) a pouco tempo