quinta-feira, outubro 31, 2013

Os Desenhos que a Chuva Fez


Hoje temos o nosso terceiro texto de convidado, Maciel T. que enviou seu texto para o nosso e-mail (veja lá embaixo como fazer para enviar o seu). O texto de Maciel é um conto de reminiscências muito delicado e bonito. Em um estilo que faz lembrar imediatamente o Conto de Natal de Dickens, mas que tem muito de Tchékov e da sutileza da literatura moderna russa. Um belo achado para o acervo do Han!




Lá fora está caindo a pior tempestade dos últimos tempos. Os trovões chegam a me ensurdecer momentaneamente. Eu estava aqui, sem animo para fazer nada, sentado em minha poltrona, observando os pingos de chuva que surgiam no vidro. Já era quase meia noite.

Às vezes, os pingos de chuva se formavam em figuras diante de meus olhos, como se fossem delírios malucos, um atrás do outro, tentando me fazer adormecer. Todas aquelas figuras lembravam algo do meu passado. Algumas delas me faziam viajar na memória de modos mágicos, me permitindo sentir novamente emoções e sensações do passado.

A primeira que vi naquela noite era um pinheiro. Uma arvore jovem e silenciosa, no solo coberto de neve. Era natal. Eu e meus irmãos fazíamos um boneco de neve. Um primo estava passando as férias conosco.

-Vai buscar uma cenoura para o nariz dele! Estamos quase acabando! Ele está enorme!

-É para já!

Nos divertíamos muito brincando na neve, fosse inventando um boneco de neve, ou fazendo uma pequena guerra de bolas de neve em nosso quintal.

Naquele dia, fiz o máximo que pude para ficar acordado a madrugada inteira, e ver Papai Noel chegar com os presentes, lhe oferecer leite com biscoitos, e quem sabe lhe ajudar a entregar os presentes nas casas dos meus amigos. Em vão. Não passei das 11 horas da noite de natal acordado.

Mesmo assim, aquele não deixou de ser um natal incrível, e não deixamos de nos divertir. Naquele dia, sentimos o que significava o nascimento do menino Jesus. Éramos crianças, não precisávamos compreender. Apenas sentir.

Mas agora, todo aquele sonho era só um desenho feito pelos pingos de chuva em minha janela, e que se desfazia aos poucos, formando-se em outra coisa.

Os pingos de chuva agora formavam outra imagem em minha janela. Algo que parecia ser um rosto. Era Clarice. A menina Clarice. Aquele rosto lindo que compartilhou comigo meu primeiro beijo.

Nada mexe mais com os sentimentos de um garoto do que um primeiro beijo. Tínhamos 13 anos na época.
Voltávamos para casa do colégio juntos, como todos os dias. Mas naquele dia, Clarice não parecia estar muito bem.

-Você está bem, não está?

-Estou. - disse.

Em nosso caminho, atravessávamos uma praça.

-Não quer sentar em um banco e descansar um pouco antes de continuarmos? Ainda falta um pouco!

-Eu sei, mas... Eu aguento.

-Isso não foi um pedido. Não vou deixar que ande toda essa distancia assim.

-Mas eu estou bem! É sério! Está tudo bem!

-Tem certeza?

-Só... Não me deixa sozinha, por favor!

- O que?

Clarice me abraçou.

-Eu não quero que me deixe sozinha, inferno!

-Eu...

Sem pensar, ela me beijou. E, de repente, nada mais importava. Tudo que importava era o que estava sentindo. O calor de seus lábios. A maciez de sua pele. Aquela loucura sadia.

De repente, desmaiou.

Dias depois, fui visitar ela no hospital. Ao me ver, olhou bem fundo nos meus olhos.

-Por favor, diz que foi real! – Pediu-me, num murmúrio.

E de novo, tudo voltou a ser o rosto de Clarice, desenhado com gotas de chuva em minha janela. Há anos que eu não a via. Muitos anos.

De repente, outro desenho se fez em minha janela. Era um passarinho. Era a pequena Sininho, um papagaio que meus pais me trouxeram, depois de eu insistir um mês inteiro por um cachorrinho.

-Você acha que isso se parece com um cachorro? – Eu disse, irritado.

-Agradeça a Deus por ele não ser um porco! - Disse minha mãe.

-Um porco se parece mais com um cachorro que esta bola de penas! - Resmunguei, sem resposta.

Minha mãe partiu para a cozinha, para fazer o almoço.

-Você é capaz de me provar que é melhor que um cachorro? - Perguntei ao bicho, que até então só me observava.

-Sininho quer bolacha! – Respondeu a penosa. Então se tratava de uma fêmea! Incrível!

-Sininho é seu nome?

-Sininho quer bolacha! - Repetiu, em um tom ligeiramente mais irritado que o anterior.

-Bolacha? É isso mesmo?

-Sininho quer bolacha, inferno! – Pediu, em tom de protesto.

Fui para a cozinha pegar um biscoito de leite para a penosa. Sininho começou a comer com vontade. Parecia que não comia há dias. Quando terminou, me olhou bem nos olhos e falou:

-Sininho te ama!

-Sininho... Sininho... Nome esquisito!

-Sininho quer bolacha!

-Quem te deu esse nome?

-Sininho quer bolacha!

-Você só pensa nisso?

-Sininho quer bolacha, inferno! – De novo em tom de protesto.

Aquele seria um dialogo dificílimo.

De repente, vinha uma luz da janela. Havia amanhecido. Talvez eu devesse ter dormido durante os meus delírios. De repente, o sol iluminava meu rosto, alegrando-me, e deixando talvez uma evidência de uma possibilidade de reviver tudo aquilo que se passou e já morreu, por meio de cada lembrança que já não se pode mais apagar...



Maciel T. tem 21 anos, é escritor e também canta nas horas vagas (o que explica porque todos os vizinhos se mudaram), sonha em ser professor, dar aula para crianças pequenas, e um dia quem sabe ter as suas próprias (de preferência com uma mulher). É louco de pedra (o que já estava fortemente implícito em "sonha em ser professor") e um pouquinho (mas só um pouquinho, quase nada) antissocial nas horas vagas!

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Voltamos com nossa série de autores inéditos, como sabem, sempre nas últimas quintas-feiras do mês. Espero que tenham gostado do delicado texto do Maciel. Caso queira participar enviem seus textos para hanatirouprimeiro@gmail.com. Contamos com vocês!


quinta-feira, outubro 24, 2013

Rosa sangrando




Não sei quanto tempo durou, mas vi a minha morte em câmera lenta, talvez por influências dos filmes. Mas o mais engraçado foi que, para não me abalar, pois morrer já é um grande choque, vi a cena em forma de desenho: ele me atacou com uma espada de samurai e ao retirá-la lentamente senti meu corpo cair para o outro lado. A dor foi lacerante no começo, mas depois ela foi embora, assim como minha vida. Agora tento entender melhor a cena, e nem sei dizer se eu realmente morri com essa espada de samurai ou se foi minha cabeça que inventou para amenizar a dor da minha morte. Ainda lembro do meu corpo cartunizado deitado no chão: acho que o desenhista poupou os seus lápis coloridos, pois meu corpo era apenas branco, preto e cinza. O único sinal de vida era a poça de sangue saindo do que antes era eu. “Mais uma rosa sangrando’’ - ouvi essa frase em algum momento da minha transição e é assim que eu prefiro imaginar meu fim.

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Um dia a Daniela chegou para mim e disse: "sonhei com a minha morte"! E depois ela escreveu um texto sobre o sonho. É este que veem agora. Aproveitem. Ahh, a montagem amadora é uma tentativa minha de transpor o sonho, a ideia foi da Daniela também, mas a falta de talento é toda minha.

quinta-feira, outubro 17, 2013

Se eu soubesse...




Se eu soubesse sempre o que fazer
Se eu soubesse sempre o que dizer
Se eu fizesse sempre certo
Se eu fosse sempre justo
Se eu conduzisse o barco, se eu guiasse a vida, se eu limpasse a alma
Se eu fosse melhor...

Eu queria ser; queria pensar
As coisas certas nas horas certas
Os discernimentos
As respostas claras
Os percursos límpidos
Os ombros leves

Se eu fosse melhor
Se eu fosse maior
Se eu fosse o meu ideal...

Alguém é; é possível?

Caminhos como horizontes
Vemos a linha, clara
Inalcançavel...
Seguimos ou construímos morada à beira do caminho?

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Escrevi este poema algum tempo atrás e coloquei no facebook, mas como as coisas por lá são muito transitórias, achei que valeria a pena colocar no blog, onde pode ser sempre lido. Pessoalmente gostei de escrevê-lo, espero que tenham gostado do resultado.


quinta-feira, outubro 10, 2013

Resolução



"It's better to burn out than to fade away" 
Neil Young



Acordei com sono, é algo recorrente nos últimos tempos. Não importa o quanto eu durma, eu sempre acordo com sono. Estou ficando um pouco cansado disto, disto de tudo o mais. Não tomo uma providência porque tenho preguiça. Alias, acho que a preguiça é a única coisa maior do que o sono na minha rotina.

Outro dia eu acordei - com sono - e não pude me levantar. Parecia-me errado que eu me levantasse. Fiquei vinte minutos olhando o meu teto. Está sujo nos cantos, meio enegrecido. Quando consegui olhar as horas, já havia passado do horário da minha entrada no trabalho. Dei de ombros. Dormi até a tarde. Acordei com sono. Diabos!

Pensei em ir ao médico, procurar me tratar, mas sabem, foda-se o médico, fodam-se todos os médicos, maldita máfia branca! Não vou sair de casa, me cansar por nada! Pra quê? Já sei o que vou ouvir! Eu sei das coisas! Eu vejo coisas que mais ninguém vê! Sim, não porque não existam, mas sim porque ninguém as nota. Sim, sempre vi.

Uma vez - no tempo do colégio - fui com minha classe a uma competição em outra escola. Como nunca joguei nada fiquei sentado nas arquibancadas. Como nunca tive amigos fiquei sentado no canto das arquibancadas, sozinho. Como sempre fui curioso, fiquei olhando os alunos da outra escola. Foi aí que notei essa menina, era pequena, frágil, assustada. Aterrorizada de conviver com os outros alunos, tremia só de passarem perto dela. Vi os meninos da escola dela passarem por ela e baterem os pés, ela tremia e quase convulsionava em cada batida. Um fez uma careta e gritou "bu", ela tremeu e cobriu a cara, senti suas lágrimas, mesmo sem vê-las. O grito ecoou no meu ouvido e de certa forma nunca deixei de ouvir este ruído. Se fiz alguma coisa? Claro que não, apenas fui embora com a minha classe no final e nunca mais vi a menina.

Mas chega, chega! Preciso levantar da minha cama e ir trabalhar, não posso perder outro dia! Não posso perder meu último dia de trabalho. Decidi que é melhor explodir do que definhar e já comprei minhas balas! Será um dia inesquecível!

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Fazia um bom tempo que eu não escrevia um conto, e escrever contos para mim nunca foi tão natural quanto escrever poemas. Mas já há algum tempo venho encucado com esse verso de Hey hey my my / My my hey hey do Neil Young e me baseei nisso para escrever o texto. Procurei tornar o narrador-personagem em um gauche, mas ele naturalmente se tornou muito mais perturbador que isto. A foto me pareceu escolha natural. Espero que gostem.


quinta-feira, outubro 03, 2013

As palavras





Às vezes as palavras são tão duras que machucam não só quem está ouvindo, mas também quem fala. Você ouviu, você sentiu, eu sei disso, mas elas foram a gota d’água de algo há muito tempo guardado. Uma ilusão, algo que eu admirava e foi retirado de mim. Não foram palavras em vão, não foram para te machucar e sim para parar de me machucar. Eu te esfaqueei com a mesma faca que estava gravada no meu coração. E agora, o que fazer com essa faca? Faca suja com nossos sangues....

Minhas feridas cicatrizaram? E as suas? Ou continua saindo sangue de palavras? As palavras: vermelhas e vivas!!! Pequenas gotas que ardem no nosso corpo e que mesmo se cicatrizarem sempre serão lembradas, pois somos o que fizemos, somos nosso passado, nossos acertos e erros.... E eu te pergunto: suporta essa cicatriz? Suporta saber que você fez essa cicatriz em mim? Mais uma na história da minha vida... na tua, na nossa vida!

Palavras: arma, sangue, ferida, cicatriz... Palavras, uma das maiores armas que existem no mundo: ela pode te destruir no mesmo segundo que ela é lançada. Palavras, apenas palavras!

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Depois de um tempinho sem publicar nenhum texto (por conta das comemorações do blog) a Daniela Matono volta com um texto bem triste e áspero, tratando do significado e do poder das palavras. Espero que gostem.